A odisseia de Lula em imagens
"Tudo que aconteceu na minha vida foi um milagre", afirma Luiz Inácio Lula da Silva. Perto de completar 81 anos, a figura central da esquerda aspira coroar uma trajetória sem paralelo com um quarto mandato como presidente do Brasil.
Lula fez história pela primeira vez como líder sindical durante a ditadura militar, antes de se tornar o primeiro presidente do Brasil que veio da classe trabalhadora.
Dirigente respeitado no mundo e muito popular ao final de seus dois primeiros mandatos (2003-2010), sua imagem foi gravemente abalada por acusações de corrupção que o levaram à prisão, antes de seu espetacular retorno à Presidência em 2023.
Um antigo companheiro sindicalista, um adversário político e um cientista político recordam episódios memoráveis de sua trajetória.
- "O nascimento de um líder" -
Em março de 1979, um Lula combativo e barbudo liderou uma histórica greve como presidente do sindicato dos metalúrgicos em um polo industrial de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. O Brasil vivia os anos sombrios da ditadura militar (1964-1985).
Nelson Campanholo, hoje com 87 anos, foi testemunha daquele momento. Também líder sindical, conheceu Lula em 1967, quando ele tinha 22 anos.
"Fizemos uma reunião no sindicato, estava lotado. Quando a gente percebeu, tinha dezenas de milhares de pessoas ao redor, do lado de fora. O que nós fizemos? Sem pedir autorização pra ninguém, fomos para o estádio da Vila Euclides", relata Campanholo à AFP.
Para discursar à multidão, Lula "usava um megafone, mas o som não estava bom e os trabalhadores tiveram que repetir o discurso várias vezes para que aqueles que estavam no fundo entendessem".
"Esse carisma, ele tem desde que eu conheço ele", resume seu companheiro de longa data.
Durante aquela greve, "assistimos naquele momento ao nascimento de um líder", afirmou à AFP Josué Medeiros, cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Outras greves foram convocadas e, em 1980, Lula ficou detido por várias semanas, assim como Nelson Campanholo.
- Um operário no poder -
Em 27 de outubro de 2002, Lula foi eleito presidente no segundo turno, após três derrotas em eleições anteriores. Ele sucedeu Fernando Henrique Cardoso.
A alternância de poder com a vitória de um ex-operário "foi um momento importante de confirmação de uma democracia, de um país que poderia ser democrático", avalia Josué Medeiros.
"Foi uma emoção muito grande ver um de nós virar presidente", recorda Nelson Campanholo.
- "Adoro esse cara" -
Durante seus dois primeiros mandatos, Lula esteve muito ativo no cenário internacional e se consolidou como líder do Sul Global.
Em uma foto de março de 2009, ele aparece rindo ao lado de seu homólogo americano, Barack Obama, à margem de uma reunião na Casa Branca.
"Essa foto tem uma simbologia também especial, por ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, então você tem aí dois personagens que representam os de baixo em duas das maiores democracias do mundo", disse Josué Medeiros.
Um mês depois, quando ambos se reuniram novamente na cúpula do G20 em Londres, as câmeras flagraram Barack Obama expressando a outros líderes sua grande admiração por Lula: "Eu adoro esse cara. Ele é o político mais popular na Terra".
- Condenação à prisão -
Mas a odisseia também teve sombras. Em 7 de abril de 2018, Lula desembarcou na cidade de Curitiba para cumprir uma pena de prisão por corrupção.
Naquele dia "acho que era a sensação de justiça sendo feita e das instituições funcionando, porque se uma pessoa que já foi a autoridade mais alta da República está sendo presa por roubar dinheiro, isso significa que as instituições estão funcionando e que as leis estão sendo cumpridas", declarou à AFP o deputado de direita Kim Kataguiri.
Kataguiri, de 30 anos, foi um dos organizadores das grandes manifestações contra a esquerda que sacudiram o Brasil a partir de 2014, após as denúncias de grandes escândalos de corrupção.
Lula passou 580 dias na prisão. Suas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por questões processuais.
- De volta ao topo -
Em 1º de janeiro de 2023, durante a cerimônia de sua posse para um terceiro mandato, Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado do cacique Raoni Metuktire e de outros representantes da sociedade civil.
Ele foi eleito em outubro de 2022 por uma margem estreita, após uma dura campanha contra o então presidente de extrema direita Jair Bolsonaro.
A foto é um "símbolo da união, mas o fato é que essa união não vingou, porque o país continua muito polarizado", observa Josué Medeiros.
Em busca de um quarto mandato, Lula terá como principal rival Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de seu antecessor.
M.Gutierrez--LGdM