La Gaceta De Mexico - "Mentiram para nós": queda nos fundos de pensão preocupa aposentados no Chile

"Mentiram para nós": queda nos fundos de pensão preocupa aposentados no Chile
"Mentiram para nós": queda nos fundos de pensão preocupa aposentados no Chile / foto: © AFP

"Mentiram para nós": queda nos fundos de pensão preocupa aposentados no Chile

O "fundo E" era considerado o plano de aposentadoria mais seguro do Chile, mas registrou perdas multimilionárias. Ao lado de milhares de chilenos, a ex-professora de matemática Magaly Valencia descobriu há poucos dias que suas economias para a velhice encolheram devido a uma aposta financeira malsucedida.

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No sistema chileno, cada trabalhador contribui com um décimo de seu salário para uma conta pessoal gerida por uma administradora de fundos de pensão (AFP), que investe esse capital nos mercados financeiros para gerar rendimentos.

A aposentada Valencia investiu seu dinheiro no fundo E, o menos arriscado dos cinco disponíveis, assim como 761 mil chilenos. Entre eles, cerca de 69 mil pessoas com mais de 60 anos, aposentadas ou próximas de se aposentar.

Esse foi o fundo mais atingido, com uma queda média de 10,4% entre janeiro e setembro.

As administradoras investiram parte dos recursos em contratos que só gerariam ganhos se as taxas de juros dos Estados Unidos caíssem. No entanto, elas subiram.

"É uma decepção total porque mentiram para nós. Sempre nos disseram que era o fundo mais seguro", lamenta Valencia, de 70 anos, que mora com o marido em um bairro de classe média de Santiago.

Desde que Valencia se aposentou, o valor de sua aposentadoria é recalculado anualmente de acordo com o saldo de sua conta. Ela afirma que seus recursos diminuíram quase 10 mil dólares (R$ 54,2 mil) desde o início do ano.

O consultor previdenciário Daniel Bautista estima que a aposentadoria de Valencia poderia diminuir cerca de 50 dólares (R$ 271) por mês se o recálculo fosse feito hoje.

O modelo das AFP foi criado no Chile em 1981, durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). As contas individuais privadas substituíram um antigo sistema público de repartição, no qual os trabalhadores financiavam as aposentadorias dos que já haviam deixado o mercado de trabalho.

Atualmente, as administradoras privadas têm mais de 12,2 milhões de afiliados.

- Viver com menos -

Após 40 anos de trabalho, Valencia passou de um salário de cerca de 2 mil dólares (R$ 10,8 mil) mensais para uma aposentadoria de 750 dólares (R$ 4,1 mil). O valor inclui o benefício pago pela AFP e a pensão garantida universal, instituída pelo governo em 2022 para complementar a renda da maioria dos aposentados.

"A gente se prepara para se aposentar sem dívidas, pensando que o dinheiro vai dar para a comida e os remédios. Mas ninguém pensa que, quando a gente se aposenta, chegam todas as doenças", diz em sua sala de estar, cercada por imagens religiosas.

Apesar de ter um seguro de saúde, ela também precisou arcar com despesas médicas elevadas.

Um câncer de mama diagnosticado pouco depois de sua aposentadoria a obrigou a desembolsar cerca de 7 mil dólares (R$ 37,9 mil) para uma cirurgia de emergência. Agora, ela precisa passar por uma operação devido à artrose, que pode custar outros 10 mil dólares (R$ 54,2 mil).

"Antes eu gostava de comer uns docinhos ou saíamos para comer fora, embora tudo isso custe dinheiro. Tudo isso vai acabar”, prevê.

Apenas 7,5% dos aposentados recebem um benefício superior ao salário mínimo de 550 dólares (R$ 2.982), segundo dados da Superintendência de Pensões.

A queda do fundo E provocou críticas de todo o espectro político e investigações do órgão regulador do setor e de uma comissão parlamentar sobre se as AFP descumpriram seu dever de cautela.

Segundo a superintendência, até setembro, os contratos registraram perdas de 10 bilhões de dólares (R$ 54,2 bilhões).

"É possível que haja uma melhora" se as AFP mantiverem os contratos e as taxas de juros dos Estados Unidos caírem, explica o economista Guillermo Larraín, ex-superintendente de Pensões.

Mario Rebolledo, ex-bancário de 64 anos, recorreu à Justiça. Ele entrou com uma ação contra a AFP após perder cerca de 5.550 dólares (R$ 30,1 mil) entre abril e outubro nos dois fundos em que mantém seu capital, o E e o D.

Este último, também de perfil conservador, foi o segundo mais atingido do sistema, com uma queda de 6,4% entre janeiro e setembro.

"Foi um baque para mim, me senti enganado, me senti roubado", diz Rebolledo.

Há dois anos, ele se aposentou com um benefício de cerca de 505 dólares (R$ 2.738), dos quais 400 dólares (R$ 2.168) são gastos com aluguel. "Minha aposentadoria dura um dia", conta. Para chegar ao fim do mês, vende roupas vintage nos fins de semana.

Convencido de que a AFP deve responder pelas perdas, Rebolledo não desiste de recuperar seu dinheiro. "Vou lutar até o fim", afirma.

E.Sanchez--LGdM