França decreta toques de recolher para conter confrontos e saques
Os moradores de quatro cidades do norte da França não poderão circular pelas ruas nas noites desta segunda-feira (19) e de terça-feira, devido a toques de recolher decretados para pôr fim aos confrontos e saques.
Lille, Douai, Wattignies e Denain são as primeiras quatro cidades onde foi anunciada a aplicação de um toque de recolher entre as 20h e as 6h (entre as 15h e as 1h no horário de Brasília), segundo o gabinete do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu.
O governo está sob pressão para pôr fim aos confrontos e saques registrados desde o fim de semana, após um grande protesto convocado no sábado contra o alto custo de vida.
As cenas de caos nas principais cidades da França, como as centenas de lojas saqueadas e o incêndio da prefeitura de Limoges, repercutiram em todo o mundo.
O governo contabilizou mais de 3 mil estabelecimentos comerciais afetados e chegou a pedir às plataformas de revenda online, como a Vinted, que retirassem anúncios de produtos provenientes desses saques.
- "Falhas" -
O presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu nesta segunda-feira "falhas" na gestão policial dos distúrbios e pediu "novos modos operacionais" para "acabar com os fenômenos de barricadas e saques".
Após uma reunião de crise, seu primeiro-ministro descartou, por enquanto, decretar estado de emergência, embora tenha admitido essa possibilidade "se necessário", e defendeu "toques de recolher parciais".
Em Denain, perto da fronteira com a Bélgica, a medida será aplicada em determinadas áreas do centro da cidade e apenas a menores de idade desacompanhados.
Cidades da Bélgica e da Itália também registraram, no fim de semana, protestos contra o encarecimento do custo de vida, que terminaram em confrontos entre a polícia e manifestantes, além de saques.
Esses atos de violência "são inaceitáveis", ressaltou o porta-voz da Comissão Europeia, Markus Lammert, que pediu à França que "proteja" o direito de manifestação pacífica.
- "O poder desertou" -
A seis meses da eleição presidencial, na qual Macron não poderá ser candidato, as cenas do fim de semana deixaram o governo contra a parede, acusado de não ter antecipado o risco de distúrbios, nem de responder às reivindicações dos manifestantes.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu uma perda de controle da polícia em "algumas cidades" durante os protestos, que resultaram em mais de 2.500 detenções e quase 1.000 agentes feridos.
"O poder desertou por completo", criticou o presidente do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), Jordan Bardella, cuja candidata à presidência, Marine Le Pen, lidera as pesquisas.
No domingo, em um aguardado pronunciamento televisionado, acompanhado por 16,7 milhões de espectadores, Macron prometeu firmeza e atribuiu os ataques a "pequenos grupos de extrema esquerda" e a "criminosos".
Mas ele não fez nenhum anúncio para amenizar o mal-estar social, embora tenha mantido uma viagem ao Oriente Médio, com o objetivo de assegurar volumes de petróleo e diesel para reduzir os preços no país.
Como prova de que a situação continua tensa, manifestantes bloquearam nesta segunda-feira o acesso ao Museu do Louvre, em apoio ao movimento estudantil que reivindica melhores condições nos colégios desde o fim de setembro.
"É desolador", disse à AFP Sébastien, um turista suíço que havia planejado a visita "há mais de um mês" com seus dois filhos.
"Uma parte de nós entende as reivindicações, mas há outros lugares que podem ser bloqueados, não um espaço cultural", lamentou.
- Tensão nos mercados -
O movimento dos coletes amarelos, que já protagonizou grandes protestos sociais em 2018 e 2019, também anunciou novas manifestações para o próximo sábado (24), dando continuidade à mobilização que impulsionou em 17 de outubro.
A situação é acompanhada com preocupação fora da França. China e Alemanha recomendaram que seus cidadãos permaneçam atentos.
Macron e seu governo também estão sob pressão internacional devido ao elevado nível da dívida francesa, situação que se agravou nesta segunda-feira.
O rendimento dos títulos da dívida pública francesa de dez anos subiu nos mercados, e as bolsas europeias caíram, pressionadas pela situação da segunda maior economia da União Europeia.
Os confrontos revelam "até que ponto será difícil para um governo implementar os cortes de gastos" que os mercados consideram "necessários para reduzir o déficit", afirmou Neil Wilson, analista da Saxo Markets.
O governo, que não tem maioria parlamentar, busca aprovar no Parlamento um forte ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (60,7 bilhões de dólares, 306 bilhões de reais) em 2027.
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V.Vega--LGdM